segunda-feira, dezembro 7

Tanto lá como cá... (7)

Na Bromélia

José Pacheco - Escola da Ponte, Vila das Aves (Portugal)



Nos seus Ensaios (de 1580), Montaigne critica os vícios educacionais da sua época: Esforçamo-nos para preencher a memória e deixamos a consciência e o entendimento vazios. Assim como os pássaros vão à procura do grão e o trazem no bico sem o experimento, para serem provados por seus filhotes, assim nossos mestres vão pilhando a ciência dos livros, alojando-a na ponta da língua, tão-somente para vomitá-la e lançá-la ao vento. Mais de quantrocentos anos decorridos, outro autor escreve: cada vez que um professor se dirige a uma sala de aula, reitera a pergunta acerca de como fazer para que as crianças e jovens não se dispersem, não atrapalhem os colegas e, mais ainda, prestem atenção à aula, se interessem pelas atividades propostas. Cumpre-se o Mito de Sísifo, em cada episódio do drama escolar. A aula continua a gerar desperdício. Alunos escutando MP3 na sala de aula – As aulas são chatas. Não há como não ouvir música. Passo pelos corredores das escolas. Salas fechadas, alunos alinhados em filas, olhando a nuca do colega da frente, copiando conteúdo do quadro – É o mundo do giz versus exílio de celular, onde o absurdo acontece: uma profesora enviou um bilhete à directora, dizendo “tenho um aluno a dormir na minha sala, peço providências”.


Aquilo que mantém viva a minha esperança é o trabalho de muitos profesores, que, anonimamente, vão construindo novas práticas e suportando o desdém de múmias pedagógicas. Até nas melhores revistas da área da educação há quem desdenhe da prática de assembleias de escola, ou imputem o insucesso dos alunos à influência de novas pedagogias. Haja paciência! Gostaria que me dissessem onde se praticam as “novas pedagogias”, eleitas como bode expiatório dos males do sistema. Ou que novas pedagogias esses especialistas terão praticado em sua sala de aula. Provavelmente, nenhuma.


Já tudo foi escrito e reescrito – desde a denúncia da doença ao seu tratamento. Insiste-se em soluções precárias, que não saem do círculo vicioso das referências paradigmáticas vigentes. Teóricos, políticos, gestores, especialistas entretêm-se em discussões estéreis: Qual a melhor idade para começar o fundamental? Qual a melhor idade para ser alfabetizado?... Um sem fim de debates bizantinos.


Ao longo de mais de três décadas, identifiquei e corrigi erros crassos em minha prática. Erros em que ainda se insiste, colocando remendos num modelo obsoleto de organização das escolas, quando se deveria fazer a sua reconfiguração. A aula continua a ser a vaca sagrada da pedagogia, algo considerado indispensável nas práticas escolares. Nunca terá passado pelas eminentes cabeças dos pedagogos oficiais a ideia de que não existe um só modo de fazer escola?


A Natureza é pródiga em metáforas. Existe um insecto que cumpre todo o seu ciclo vital sem jamais sair da bromélia, que é a sua casa e o seu túmulo. Mas, como diria o Pessoa, há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo, esquecer os caminhos que nos levam sempre aos mesmos lugares; é o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.


a página da educação - Outono 2009.

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